Tocantinense transforma matérias-primas das abelhas em negócio familiar
Por Clarissa Fernandes
Quando o pai de Erika Rocha parou a caminhonete às margens de uma estrada em Palmas e prometeu comprar um pedaço de terra para chamar de “Recanto da Abelhinha”, ele não imaginava que aquele gesto, símbolo de amor e carinho, atravessaria gerações. Anos depois, o sonho se transformou em realidade, deu nome ao apiário da família e inspirou uma marca tocantinense que transforma matérias-primas produzidas pelas abelhas em cosméticos artesanais fabricados no Cerrado.
A história começou antes mesmo da criação da empresa. Mellyssa, filha de Erika, nasceu durante o trajeto para o hospital. O nome, que significa “abelha” em grego antigo, logo ganhou um apelido carinhoso dado pelo avô, Nael. “Abelhinha”, era assim que chamava a neta diariamente.
Em uma das viagens pela região de Palmas, Nael disse que compraria pelo menos um pequeno pedaço de terra para homenagear a menina. O sonho não chegou a ser realizado por ele. Em 2022, ele morreu vítima da Covid-19. Mas a promessa permaneceu viva na memória da família.
Anos depois, o marido de Erika conseguiu adquirir uma propriedade rural e decidiu fazer uma surpresa. Ao receber a escritura, ela descobriu que o terreno já tinha um nome escolhido: Recanto da Abelhinha.
O local se tornou não apenas uma homenagem à filha e ao pai de Erika, mas também o ponto de partida de um empreendimento que hoje une tradição familiar, inovação e valorização dos produtos das abelhas.

Erika com a filha Melyssa. Foto: Arquivo pessoal
Do mel aos cosméticos
Cercado pela vegetação típica do Cerrado tocantinense, o Recanto da Abelhinha abriga cerca de 200 colmeias. É dali que saem o mel, a própolis, o pólen e a cera utilizados na produção desenvolvida pela família.
Durante anos, a atividade esteve concentrada principalmente na comercialização de mel. Mas Erika acreditava que poderia ir além.
“Eu queria agregar valor ao mel. Nós temos mel, própolis, cera de abelha e pólen, mas comercializávamos principalmente o mel. Quando comecei a conhecer a cosmetologia dos produtos das abelhas, fui buscar capacitação para aprender a transformar esses ingredientes em novos produtos”, conta.
A busca por conhecimento levou a empreendedora para diferentes regiões do país. O primeiro passo foi participar de um curso online oferecido pela Escola da Apicultura. Depois vieram capacitações presenciais em Ilhéus, na Bahia, Anápolis, em Goiás e também em São Paulo.

Erika e sua família no Congresso da Apicultura em Goiás.
Foto: Arquivo pessoal.
Em cada viagem, Erika ampliava os conhecimentos sobre manipulação de matérias-primas produzidas pelas abelhas e aprendia novas técnicas para desenvolver cosméticos naturais.
Rotina de produção
Enquanto o marido e os cunhados são responsáveis pelo manejo das colmeias, coleta do mel e cuidados com o apiário, Erika se dedica à criação e produção dos cosméticos.

Elio Alves da Rocha, marido de Erika. Foto: Acervo pessoal.
Entre recipientes de mel, blocos de cera, extratos de própolis e fórmulas desenvolvidas a partir dos cursos de capacitação, ela transforma matérias-primas do apiário em produtos voltados ao cuidado pessoal.
Atualmente, a marca Mellyssa Produtos das Abelhas oferece uma linha de cosméticos artesanais composta por cremes hidratantes, shampoos, sabonetes íntimos, sabonetes corporais, lip balms e sabonetes em barra produzidos com ingredientes derivados das abelhas.
Os produtos são elaborados sem conservantes e sem derivados de petróleo, utilizando principalmente mel, própolis, pólen e cera de abelha.
A próxima novidade já está em desenvolvimento. A empreendedora pretende lançar um sérum facial conhecido como “botox natural”, formulado com apitoxina, o veneno produzido pelas abelhas.
Segundo Erika, a técnica foi aprendida durante uma capacitação em Goiás, onde ela e o marido participaram de um curso voltado à extração humanizada da substância, sem causar danos aos insetos.
Crescimento e valorização dos produtos das abelhas
O conhecimento adquirido ao longo dos anos permitiu que a família deixasse de depender exclusivamente da venda de mel e passasse a enxergar novas oportunidades de negócio.
A criação da marca Mellyssa Produtos das Abelhas representa justamente essa transformação. O que antes era comercializado principalmente como matéria-prima passou a ser convertido em produtos de maior valor agregado.
A aceitação do público também tem incentivado a expansão do empreendimento. Durante eventos e feiras do setor agropecuário, Erika apresenta os produtos e observa um interesse crescente por alternativas naturais produzidas a partir dos recursos da apicultura.
Pequenas polinizadoras, grande impacto
Além da importância econômica para a família, as abelhas exercem um papel fundamental para a agricultura e para a conservação ambiental.
De acordo com o engenheiro agrônomo e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Paulo Henrique Tschoeke, esses insetos estão entre os principais agentes polinizadores da natureza.
Segundo ele, diversas culturas agrícolas dependem da polinização para produzir frutos e sementes, enquanto espécies nativas utilizam esse processo para garantir sua reprodução.
“Existem culturas agrícolas que dependem fortemente das abelhas para produzir frutos. Em culturas como melão e melancia, por exemplo, sem a presença dos polinizadores a planta pode até florescer, mas não produzir adequadamente”, afirma.
O pesquisador destaca ainda que a importância das abelhas vai além das lavouras. No Cerrado, elas contribuem para a reprodução de inúmeras espécies vegetais e para a manutenção da biodiversidade.
Para ele, a conservação da vegetação nativa e o fortalecimento do diálogo entre produtores rurais e apicultores são fundamentais para garantir a sobrevivência desses polinizadores.
O legado da Abelhinha
No Recanto da Abelhinha, a história iniciada por um avô e uma neta continua produzindo resultados.
O sonho que Nael não conseguiu realizar em vida hoje abriga centenas de colmeias, sustenta um negócio familiar e inspira uma marca registrada que leva o nome da menina, chamada carinhosamente de “Abelhinha”.
Entre o Cerrado tocantinense, o trabalho silencioso das abelhas e a dedicação de uma família empreendedora, Erika e a família encontraram uma forma de transformar a memória afetiva em oportunidade, mantendo vivo um legado construído com afeto, trabalho e respeito à natureza.

Por Clarissa Fernandes, estudante do 8o. período, supervisão da professora Daniela Soares






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