Criado para prestar assistência emocional o Centro de Valorização à Vida desagrada pessoas em situação de vulnerabilidade
Por Arthur Regino
Em um sábado à noite, estava rolando uma rede social qualquer, quando me deparei com o depoimento de uma pessoa que havia sido despejada da casa que morava de aluguel. No relato a pessoa informava que a proprietária do imóvel, não permitiu sequer a retirada dos remédios que ela usava para anemia falciforme. Era uma noite fria, e a pessoa estava sozinha e sem dinheiro para comer .


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Me disse que sentia dores, que tentava se manter acordada em um posto de gasolina 24h recarregando a bateria do celular. Durante essa conversa, perguntei como ela poderia conseguir dinheiro para resolver a situação, e respondeu que estava esperando o pagamento de seu antigo serviço. Era o CVV.
Me envolvi diretamente com a questão e solicitei que me relatasse a experiência do trabalho que realizou no CVV. Vale esclarecer que também me coloco entre as pessoas que precisaram do atendimento em algum momento da vida.
Durante a conversa, tentei dar apoio emocional, a pessoa me relatou que já havia passado pela experiência de ter sido uma operadora na linha telefônica da organização Centro de Valorização à Vida (CVV). Chamaremos-a de Carla (nome fictício).
Aumento de casos de doenças Mentais no Brasil
O Observatório Saúde Pública (UMANE) registra o comprometimento da saúde mental dos brasileiros, motivada pelas relações de trabalho. Dados de 2025 do Ministério da Previdência Social indicam que o INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) recebeu mais de 3,5 milhões de pedidos de afastamento médico em 2024, sendo 472.328 por transtornos mentais, um aumento de 68% no número de casos em relação a 2023.
O crescente aumento desses de tipos de distúrbios psíquicos faz com que a busca por acompanhamento, acolhimento e tratamento psicológico em decorrência das radicais mudanças sociais, justifique o aumento de afastamentos do trabalho, distanciamento de redes de apoio e até ao autoextermínio.
O estudo de Estresse Financeiro realizado pela Onze (fintech de saúde financeira e previdência privada, em parceria com a Icatu Seguros) ouviu 8.701 pessoas nas cinco regiões do país e traça um retrato sobre o impacto da instabilidade financeira na vida dos brasileiros.
O estudo revela, também, um cenário crítico de desinformação, falta de planejamento e sobrecarga emocional. Entre os entrevistados, 49% apontaram o dinheiro como a maior fonte de preocupação, superando temas historicamente sensíveis como saúde (19%), família (15%), trabalho (7%), violência (7%) e política (3%).
As taxas de ansiedade também vêm crescendo de forma bastante expressiva, e não é de hoje, é o que comprova pesquisa conduzida pela psicóloga Dra. Jean Twenge, da San Diego State University, publicada pela Associação Americana de Psicologia (APA) no ano 2000, mostrando que o estudante do ensino superior ou o colegial de ensino médio possui as mesmas taxas de ansiedade que pacientes em instituições mentais nos anos de 1950.
A atuação do Centro de Valorização à Vida
Esse cenário descrito é o que justifica a atuação do CVV há mais de 60 anos no Brasil. O Centro visa a prevenção do suicídio e dá apoio emocional, oferecendo um espaço anônimo para pessoas em momentos de desespero.
Pesquisas recentes e relatos de pessoas entrevistadas, as quais manteremos o anonimato, mostram o descontentamento com o atendimento do CVV. “Já escutei de muitos colegas, de várias pessoas, de companheiros de internação, de gente desafortunada reclamando do tempo de espera, de como os atendentes até pioram os casos de crise psicótica”, disse Carla, uma entrevistada.
Para as pessoas que se disponibilizaram a falar sobre a própria experiência no CVV, o maior problema apontado é a demora no atendimento da ligação. “As pessoas se sentem invalidados e expostas pelo CVV”, disse Carla, a mesma que também atuou como atendente do CVV, em uma cidade no Nordeste.
Carla revela que “era nítido o cansaço crônico, o vazio na vida das pessoas ao meu redor, que sofriam com ansiedade, tristeza e depressão, e que mesmo assim faziam atendimento no CVV”, explicou.
“Eles passavam pelo mesmo que eu. Queríamos ser atendidos naquela ligacão. Para muitos aquela era a última chance, o último fio de esperança e de sanidade. Quando o fio estourou, decidi me voluntariar.” A partir desse momento, Carla passou de usuária do serviço à atendente. “Eu queria colaborar com as pessoas que, como eu, precisavam dessa rede de apoio.

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Luana, também uma fonte que solicitou ser identificada por pseudônimo, disse trabalhar como oficial de justiça. “Como tenho depressão grave desde a infância, sempre aparecia alguém indicando que eu procurasse o CVV”, relata. “Pessoas próximas chegaram a insistir porque a condição é muito comum na minha família e como experimentei o extremo sem sucesso, numa data em crise resolvi procurar”.
Para Luana, há muita contradição na forma de atendimento. “De início a pessoa que me atendeu questionou a busca. Fiquei sem resposta uma vez que sabia que eles tem projetos de acolhimento nessas situações”, recorda. “Infelizmente não recebi nem empatia. Era um senhor. Não me perguntou nada e já começou a me criticar pela tentativa na busca de ajuda para viver. Me mandou fazer orações, e de verdade, é o que sempre faço”.
A quantidade de pessoas que tentam ligar e não são atendidas, e quando conseguem atendimento, se frustram pelo mau acolhimento, vem crescendo. Luana também completa que “quem consegue um atendimento, não recebe o que é prometido”, lamentou.
Luana é uma das muitas que se viram vítimas de um serviço considerado “de valorização à vida”, mas que “se atesta como de qualidade e execução duvidosa” em sua fala.
O mesmo ocorreu com Jhonatan (nome fictício) é outra pessoa que recorreu ao atendimento de “valorização à vida” e não obteve êxito. Adolescente, passando pelas pressões de decidir o futuro em uma idade de muitas incertezas, entrou em crise e recorreu ao CVV. “Precisei me equilibrar nessa fase da vida”, tenta explicar.
“Há expectativas depositadas pelos outros, a mente começa a derreter com o tanto a se fazer, os prazos a cumprir e os objetivos a realizar pela vontade alheia, foi num momento muito intenso para mim”, justifica.
Jhonatan admite que “senti que estava usando 100% da minha energia nas 24h do dia. Quase não descansava, trabalhava, estudava, mantinha amigos, e não tinha como desacelerar o cérebro”, para o jovem “tudo era rápido demais, acelerado, instantâneo”.
A pressão das avaliações das disciplinas da faculdade, foi o gatilho para que ele entrasse em exaustão. “Não se falava em outra coisa que não fosse prova, vestibular, faculdade, curso, diploma”, relembra. “Quando comecei a fracassar por exaustão, precisei de uma pausa, enlouqueci, era estresse e culpa”.
A partir desse gatilho, o jovem passou a ter comportamentos autodestrutivos. “Me cortava, brigava sem motivo, chorava em público e outras coisas que tenho vergonha hoje”. Em um dia de desespero, Jhonatan ligou para o CVV. “Esperei, esperei, esperei… eu estava a uns dois dias sem dormir, então acabei apagando com o celular na orelha”. Jhonatan relembra, agora mais equilibrado, que “quando acordei e percebi que ninguém tinha me atendido, entrei em uma crise de riso”.
Segundo Jhonatan, os problemas mentais não passaram, mesmo que àquela fase ruim tenha passado. “Fui,extremamente estragado por tudo o que passei, mas cair em sono profundo, um desmaio, foi o que impediu a minha morte, e aconteceu por não ter sido atendido soa um tanto quanto irônico”.
Grupo Toca das Leoas
Toca das Leoas é um grupo de WhatsApp composto por mulheres mães de filhos PcD, chamadas “mães atípicas”. O grupo é administrado pela professora e advogada Daniela Monticelli Manso Guimarães, especializada em causas que envolvem maus tratos e violação de direitos de PcD.

Imagem do facebook do Grupo Toca das Leoas.
Com 701 membros o grupo é composto por pessoas de todo o Brasil e do exterior.
Cuidar de uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou outras condições de desenvolvimento atípico é uma jornada que exige dedicação integral, e que vem gerando um fenômeno chamado de burnout parental.
O burnout parental gera um estado de exaustão física, emocional e mental extrema relacionado ao exercício da parentalidade. Dados recentes de universidades brasileiras, como a UFC e USP, por exemplo, revelam a dimensão silenciosa desse problema entre famílias de crianças atípicas.
Estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou que o perfil de maior risco é o feminino, as mães representam 87,4% da amostra. Fatores como a classe social (menor renda), baixo suporte social, intensificam níveis elevados de estresse parental.
O estudo qualitativo complementar revelou ainda os sentimentos que permeiam essa vivência: percepções de fracasso, culpa constante, sensação de incapacidade e exaustão que persiste mesmo após o descanso são comuns nessas mulheres.
O grupo Toca das Leoas é composto por 701 membros, segundo Daniela Monticelli, “na época entre os anos 80 e 90 eu ouvia falar sobre o CVV, mas de uns 20 anos pra cá nunca mais escutei”.
Para a advogada, “o CVV é um serviço que tem uma ótima proposta e ajudaria no enfrentamento às crises de mães estressadas pela vida dos filhos atípicos. Se equipado com bons profissionais ou com acadêmicos no último ano de psicologia seria maravilhoso. Elas (as mães) precisam muito de um apoio mesmo que só seja pela escuta”.
Saúde mental
Estatísticas de transtornos mentais no Brasil e no Mundo indicam que o aumento dos índices de suicídio nas Américas e no Brasil tem como principais justificativas os impactos residuais da pandemia de COVID-19, o aumento da solidão, o desemprego e a falta de acesso rápido a serviços de saúde mental.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o suicídio é responsável por cerca de uma em cada 100 mortes globais, superando fatalidades por HIV, malária, câncer de mama, guerras e homicídios.
No Brasil, os suicídios em 2023 superaram outras causas relevantes de morte, como câncer de próstata, AIDS, intervenções policiais e feminicídios. Além disso, os números se aproximaram dos casos de óbito por câncer de mama, uma das doenças de maior impacto na saúde pública.
Esses dados reforçam a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre os fatores que contribuem para o aumento dos suicídios e embasar políticas públicas de prevenção.
Em rápida pesquisa pela internet pode-se constatar que há uma predominância de vários fatores que são apontados como determinantes para o autoextermínio entre eles estão:
I) Saúde Mental: A depressão, transtornos de humor e o uso abusivo de substâncias estão ligados a cerca de 90% dos casos. A interrupção de tratamentos e o aumento de traumas pós-pandemia agravaram severamente esse quadro.
II) Aspectos Socioeconômicos: Crises financeiras, desemprego e desigualdade geram forte impacto psicológico. No Brasil, fatores como a pobreza e a falta de oportunidades pesam de maneira considerável, especialmente entre as populações vulneráveis.
III) Isolamento Social: Mudanças nas dinâmicas sociais, aumento da solidão e a falta de redes de apoio familiar/comunitário contribuem para o agravamento do quadro.
IV) Uso de Redes Sociais: O crescente isolamento na vida real e a exposição a conteúdos nocivos ou de comparação intensa na internet têm sido fortes gatilhos, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.
V) Barreiras no Atendimento: A dificuldade em conseguir acompanhamento psicológico e psiquiátrico na rede pública afeta a percepção e o cuidado das pessoas com ideação suicida.
As pessoas reagem de maneira diferente a situações estressantes. Vai depender da formação, da sua história de vida, das suas características particulares e da comunidade em que vive. Os grupos que podem responder mais intensamente ao estresse de uma crise incluem:
I) pessoas idosas ou com doenças crônicas que apresentam maior risco se tiverem Covid-19;
II) profissionais de saúde que trabalham no atendimento à Covid-19;
III) pessoas com transtornos mentais, incluindo problemas relacionados ao abuso de substâncias.
CVV no Brasil
O CVV no Brasil, foi fundado por um grupo de jovens inspirados no pelo The Samaritans, a instituição começou com 17 voluntários realizando os primeiros atendimentos por telefone em uma sala emprestada no centro de São Paulo no dia primeiro de março de 1962. Em 1973, o CVV foi reconhecido como entidade de Utilidade Pública Federal. (FONTE com link)
Existem outras instituições com o mesmo propósito nos Estados Unidos da América com a linha 988, no Reino Unido com o The Samaritans na linha 116 123, na Espanha o 024 atendido diretamente pelo Ministério da Saúde, em Portugal com o Programa SOS Voz Amiga no número 112 e na França o número nacional de prevenção ai suicídio é 3114.
Inicialmente, o Centro funcionava de maneira restrita, realizando ligações locais e com o funcionamento apenas em horários específicos. O serviço ganhou marco histórico em 2017 com a implementação do número telefônico 188, que é gratuito, funciona 24 horas por dia em todo o território nacional e pode ser acessado também por chat, e-mail e Skype.
Dados do Reclame Aqui https://www.reclameaqui.com.br/, site que avalia o atendimento da prestação de serviços e atendimentos de várias empresas, com mais de 25 milhões de reclamações atendidas, traz as notificações dos atendimentos dirigidos às pessoas que buscam o CVV.
O perfil do CVV é de uma carinha de emoji contrariada, indicando um site “não recomendado. No site há o endereço : http://www.cvv.com.br/.
As principais reclamações contra o CVV são:
Demora excessiva e atendimento silencioso.
Atendimento despreparado e desumanizado em momento de crise emocional.
Atendimento robotizado e falta de empatia
Atendimento inadequado e assustador no CVV
Dentre outros critérios de avaliação.
Cada indicador possui um peso específico no cálculo de reputação. São eles:
- Taxa de Reclamações Respondidas – Peso 2 no cálculo da reputação
- Porcentagem de Voltaria a fazer Negócio – Peso 2 no cálculo da reputação
- Percentual do Índice de Solução – Peso 3 no cálculo da reputação
- Porcentagem da Nota do Consumidor – Peso 3 no cálculo da reputação
Atendimento do CVV (DADOS DO RECLAME AQUI)




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