Quando o afeto da infância vira renda familiar : criatividade feminina transforma pomar de jabuticaba em turismo ecológico no Jalapão

Por Morgana Gurgel

Debaixo dos pés carregados de jabuticaba em Taquaruçu, distrito turístico de Palmas cercado por cachoeiras e áreas verdes, visitantes colhem frutos, compartilham lembranças da infância e levam para casa geleias, licores e histórias. Foi no quintal da própria residência que Tereza Felix Bezerra Neves, de 61 anos, transformou uma tradição familiar em renda complementar, acolhimento e experiência turística. 

Natural de São João, em Pernambuco, Tereza vive há décadas em Taquaruçu, onde construiu a vida ao lado da família. Entre árvores cultivadas sem aditivos químicos há mais de 20 anos, ela abriu as portas do Pomar Flor de Jabuticaba para receber visitantes durante o período da colheita e passou a comercializar produtos artesanais feitos a partir da fruta. 

“Cada membro da família plantou uma muda. Depois fomos plantando mais”, relembra Tereza.

As primeiras jabuticabeiras foram plantadas em 2002, ano em que a filha Mariana nasceu. As mudas foram dadas pelo pai de Tereza e distribuídas entre os integrantes da família. Mais tarde, novos pés surgiram pelas mãos dela, do esposo Hildebrando e da própria filha. 

O esposo Hildebrando e a filha Mariana durante o plantio das primeiras mudas de jabuticaba da família, em Taquaruçu –  Foto: Arquivo pessoal/Tereza Felix 

Hoje, além dos pés já produtivos, outras mudas seguem crescendo no terreno onde a família vive e recebe visitantes durante a época da colheita.  

Do quintal para a renda familiar

Durante muitos anos, as jabuticabas eram compartilhadas apenas entre amigos, parentes e vizinhos. Os produtos derivados, como geleias e licor, eram preparados de forma artesanal apenas para presentear pessoas próximas.

A mudança começou há cerca de três anos, quando a família foi convidada a abrir o pomar para experiências de visitação durante a Festa da Colheita da Jabuticaba, evento tradicional de Taquaruçu.

“No começo, meu esposo relutou um pouco. Mas depois aceitou. As pessoas vinham, compartilhavam histórias e compravam as jabuticabas in natura”, conta Tereza quando descobriu que não era só a família dela que tinha a mesma lembrança afetiva de tirar a fruta do pé de árvore.

Foi no contato com os visitantes que fez a ideia nascer do coração de Tereza como uma nova possibilidade de renda. Os elogios constantes às receitas artesanais incentivaram Tereza a começar a comercializar os produtos feitos a partir da fruta cultivada no próprio quintal.

Primeiro vieram as geleias. Depois, a cocada artesanal de colher (considerada exclusiva da família) e o licor produzido por fermentação natural, sem ir ao fogo.

Hoje, toda a produção continua sendo feita manualmente, com ajuda da família.

Produtos comercializados na Flor de Jabuticaba – Foto: Arquivo pessoal/Tereza Felix 

Sabores que despertam lembranças

Vivências registradas dos visitantes nos pomares de jabuticaba – Foto: Arquivo pessoal/Tereza Felix 

Tereza relata que o pomar se tornou um espaço de reencontro com memórias afetivas. Segundo ela, muitos visitantes associam a experiência ao período da infância, quando colher frutas no quintal fazia parte da rotina familiar.

“As pessoas comentam muito que isso lembra a infância delas. Elas ficam admiradas como uma fruta tão pequena pode render tantas coisas gostosas”, afirma.

O período da colheita costuma acontecer após as primeiras chuvas, geralmente entre outubro e novembro, quando o pomar é aberto para a chamada “vivência”. Além das vendas dos produtos no local, parte da produção também é comercializada na Quitanda da Festa da Colheita da Jabuticaba.

Mesmo sem manter barraca própria na feira, a família consegue vender os produtos diretamente no pomar e pelas redes sociais. 

Turismo, acolhimento e conexão humana

A relação entre o turismo e o crescimento do empreendimento se tornou um dos pilares da atividade desenvolvida pela família. Além do pomar, Tereza também mantém uma casa de temporada em Taquaruçu, utilizada como apoio na divulgação dos produtos artesanais.

“Por ser um lugar turístico, abrir o pomar é uma experiência única. As pessoas lembram da infância e acabam levando os produtos também”, explica.

Ela conta que muitos visitantes retornam todos os anos, criando uma relação afetiva com o espaço e com a família. Este é um exemplo de que não só o nosso cérebro é capaz de criar um negócio, mas o coração também é.

Placa de identificação da casa de temporada-Foto: Arquivo pessoal/Tereza Félix

Placa de identificação da casa de temporada – Foto: Arquivo pessoal/Tereza Félix

Entre as lembranças mais marcantes, Tereza cita a visita de uma idosa diagnosticada com Alzheimer que, após assistir uma reportagem sobre a Festa da Colheita, pediu para conhecer o pomar por lembrar da infância.

“A família trouxe ela para a vivência. Colocaram ela embaixo do pé de jabuticaba e foi emocionante ver a alegria dela e de todos”, recorda.

Produção artesanal e valorização regional

Toda a produção realizada no Pomar Flor de Jabuticaba é feita de forma artesanal e sem utilização de aditivos químicos no cultivo das árvores.

Para Tereza, o trabalho também representa uma forma de preservar sabores, tradições e receitas passadas entre gerações.

“É uma forma de levar adiante esse cultivo das jabuticabas e também as receitas feitas com a fruta”, afirma.

Pomares e Jabuticabas recolhidas em sua residência –  Foto: Arquivo pessoal/Tereza Felix 

Apesar da renda obtida funcionar como complemento financeiro para a família, ela afirma que o principal retorno está na troca de experiências proporcionada pelo empreendimento.

“Existe uma troca que não tem preço. Abrimos nossa casa para receber as pessoas de coração aberto”, diz.

Um negócio que nasceu para evitar desperdício

Tereza conta que nunca imaginou transformar o quintal da própria casa em um negócio. O que incomodava, segundo ela, era ver parte da produção se perder mesmo após dividir as frutas com familiares e amigos.

“Transformar isso em um negócio foi muito bom, não apenas pela renda, mas pela conexão com as pessoas e suas histórias de vida”, afirma.

Hoje, ela define a jabuticaba como símbolo de acolhimento, memória e também de empreendedorismo familiar em Taquaruçu.

“Que as mulheres tenham coragem de começar e aos poucos deixem sua marca diferenciada”, aconselha.

Tereza Felix recebe visitante no Pomar Flor de Jabuticaba – Foto: Arquivo pessoal/Tereza Felix

Reportagem de Morgana Gurgel, aluna do 8o. período do Curso de Jornalismo, sob a supervisão da Profa. Dra. Lúcia Helena Pereira

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