Por Marcos Arrais/CalangoPress

Hoje, dia 11 de novembro a Escola Estadual Beira Rio, em Luzimangues, foi palco do evento Eco das Ancestralidades: Resistência e Reexistência do Povo Tocantinense, projeto idealizado pela área de Ciências Humanas da instituição.

A proposta busca promover reflexões sobre as lutas do povo tocantinense, destacando lideranças indígenas e negras que atuam na defesa dos direitos e da cultura local. A atividade integra a matriz curricular e coincide com o mês da Consciência Negra, fortalecendo o diálogo entre educação, ancestralidade e justiça social.

A presença e o protagonismo indígena na educação têm se fortalecido em todo o país, reforçando o papel do conhecimento como instrumento de transformação, inclusão e valorização cultural.

Imagem dos Avá Canoeiro, que habitam a Ilha do Bananal

Para a professora Elizabeth Bezerra de Oliveira, uma das idealizadoras do projeto Eco das Ancestralidades, a educação é uma das principais armas na luta por igualdade e reconhecimento: “O principal objetivo do nosso evento é mostrar que as armas de hoje são outras, ocupar os espaços de poder, os espaços da educação. É sobre inspirar os jovens para que entendam que a luta coletiva é construída ao longo da história e continua existindo”.

Elizabeth pretende mostrar que “as injustiças sociais vão continuar e os novos enfrentamentos sempre vão existir. Por isso, precisamos de líderes que façam essa luta e que inspirem nossos estudantes”, adverte.

Representatividade no campus

Essas reflexões dialogam diretamente com o movimento de inclusão indígena nas universidades, que cresce em todo o país. Por meio de políticas afirmativas e da ampliação de vagas pelas cotas.

Fran Santos e Malusa do grupo Vozes do Ébano

Com as políticas que visam a reparação de tantos anos de exclusão das pessoas negras, pardas e indígenas, mais jovens oriundos de povos tradiconais têm ingressado no ensino superior e ocupado espaços de destaque acadêmico e político.

Essas palavras encontram eco na trajetória de Narruria Javaé, estudante indígena do sexto período de Psicologia na Universidade Federal do Tocantins (UFT), campus de Miracema.

Para Narruria estar na universidade é mais do que um sonho realizado, é um ato de resistência: “É um privilégio ocuparmos espaços universitários, sendo protagonistas da nossa própria história”, reconhece.

Apesar de enfrentarmos racismo e sexismo epistêmico, percebemos a importância que este espaço nos oferece. A universidade é uma porta-voz: somos receptores de conhecimentos, mas também transmissores de sabedoria ancestral”, afirma Narruria.

A estudante destaca que, embora o acesso tenha melhorado, a permanência ainda é um desafio. “Sair da aldeia diretamente para a universidade é difícil. Enfrentamos o preconceito estrutural, mas transformamos vozes ancestrais em letras, em pesquisas científicas voltadas para os povos indígenas”, relata.

Narruria também comenta sobre as iniciativas que buscam fortalecer a presença e o pertencimento indígena dentro das universidades, como o acolhimento de calouros indígenas e a realização de jogos e eventos culturais no campus, que acontecem no mês de abril, que são as formas de combater preconceitos e realmente sentirem pertencente da universidade.

Apesar dos avanços, a estudante reconhece que a realidade nas comunidades indígenas ainda é marcada por desigualdades: “Na educação, a estrutura ainda é precária. Na saúde, há desafios com transporte, medicação e consultas especializadas. Mesmo com a Secretaria Especial de Saúde Indígena, o atendimento é basicamente de atenção básica. Na questão do emprego, há avanços, mas muitos ainda enfrentam dificuldade para conseguir uma vaga”.

O avanço das vozes indígenas nas universidades representa não apenas conquistas individuais, mas também a reafirmação de um direito coletivo: o de aprender, ensinar e existir com dignidade, levando consigo as raízes, os saberes e as histórias que formam o Brasil.

Segundo o artigo da Associação Nacional de Apoio ao Índio (ANAÍ), enquanto no país havia cerca de 11,4 mil estudantes indígenas no ensino superior em 2009, esse número saltou para aproximadamente 70 mil em 2022, o que evidencia avanços, mas também destaca o desafio persistente da permanência e conclusão desses cursos.


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Um Projeto de Pesquisa e Extensão idealizado para as atIvidades práticas de reportagem, produzido com a participação dos acadêmicos do curso de jornalismo da UFT.

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