FILME “O EVANGELHO DA REVOLUÇÃO” RELEMBRA MORTE DE PADRE JOSIMO

Política e espiritualidade, tônica da Teologia da Libertação perpassa o enredo

Por Núbia Matos

Entrevista com historiador Erivelton Santos, de Santana do Araguaia-PA

Hoje, dia 14 de maio, será exibido o documentário “O Evangelho da Revolução”, de François -Xavier. O enredo que articula política e espiritualidade, trata da luta revolucionária como uma espécie de evangelho, aquele mesmo preconizado pela Teologia da Libertação.

O documentário refrata o impacto político das Comunidades Eclesiais de Base e da Teologia da Libertação, que surgiu na América Latina na década de 60 fazendo a junção da fé cristã com política, um movimento marxista que funcionou na época como uma resposta social à Ditadura Militar no Brasil.

O teólogo peruano Gustavo Gutiérrez é considerado o “pai” da teologia da libertação, tendo cunhado o termo em 1968. Outros nomes importantes incluem Leonardo Boff, Camilo Torres (padre guerrilheiro), e bispos como D. Helder Câmara.

No Tocacntins, na região do Bico do Papagaio, o padre Josimo de Morais Tavares é um representante desta luta, tendo pagado com a vida, no dia 10 de maio de 1986.

“A luta por igualdade de terra, água e moradia, para os mais humildes e suas pregações e diálogos constantes, desencadeou um movimento de revolta dos poderosos da região, que culminou com o assassinato do padre”, explicou o historiador e professor da Educação no Campo, Erivelton Santos.

“Ele foi baleado duas vezes, no dia 10 de maio de 1986, estava sozinho, não quis ser acompanhado por ninguém, para não pôr ninguém em perigo, mas já havia sofrido um atentado antes.

A morte ocorreu quando o padre Josimo estava subindo os degraus da Comissão Pastoral da Terra em Imperatriz do Maranhão. O assassino foi Geraldo Vieira, na época com 62 anos. “Sem nenhum pudor, o assassino gritou: Josimo! ao se virar levou um tiro, depois mais um e caiu ainda vivo”, relembra o professor Erivelton.

Na opinião do historiador,  o padre Josimo não foi socorrido como devia, foi vítima de racismo, pois, segundo ele, o padre morreu pela demora no atendimento. “Ele foi levado para o hospital Socorrão, em Imperatriz do Maranhão, mas era negro e simples, levou muito tempo para receber tratamento, e não resistiu às balas e veio a falecer naquele 10 de maio de 1986”.

O autor confesso do crime, Geraldo Rodrigues da Costa, foi condenado, em 1988, a 18 anos e 6 meses de prisão. Ele confirmou ter sido contratado para matar o padre. O fazendeiro Geraldo Paulo Vieira, outro envolvido, foi condenado a 18 anos de prisão, depois de 37 horas de julgamento.

Vieira teria participado do acordo em que foi decidida a morte do padre. O filho de Geraldo Vieira, responsável pela intermediação do pagamento, recebeu a maior pena: 19 anos. Ele foi o único condenado por unanimidade dos votos dos sete jurados.

 Padre Josimo tem recebido, ao longo dos 40 anos do aniversário da sua morte várias homenagens, as suas falas:

“Morro por uma causa justa”, um pouco antes de sua morte, bem como o texto “Quem é este menino negro que desafia limites?”, escrito por ele em abril de 1986, são marcas da passagem pelo movimento sacerdotal e pela opção pelas causas sociais, mas especificamente na região do Bico do Papagaio.

O Bico do Papagaio está localizado no extremo norte do estado do Tocantins, fazendo divisa com os estados do Maranhão (a leste) e Pará (a oeste). É uma região geográfica do Tocantins composta por 25 municípios, situada entre os rios Araguaia e Tocantins, com históricos conflitos por disputa agrária violentas, envolvendo comunidades indígenas, posseiros, grileiros e latifundiários.

O filme “O Evangelho da Revolução” destaca que a revolução não aparece como um mero gesto de violência, mas como opção paciente e comunitária em sociedades e contextos que suprimiram todas as vias pacíficas e democráticas. Esse enquadramento amplia o horizonte do espectador, que é convidado a enxergar a luta por transformação social como prática de cuidado, esperança e fé.





Núbia Matos é estudante do Curso de Jornalismo da UFT

Deixe um comentário

Eu sou O
Calangopress

Um Projeto de Pesquisa e Extensão idealizado para as atIvidades práticas de reportagem, produzido com a participação dos acadêmicos do curso de jornalismo da UFT.

Vinculado ao Núcleo de Jornalismo (NUJOR), o Calangopress funciona como laboratório para as atividades práticas do estágio, supervisionado pela Prof. Dra. Maria de Fátima de Albuquerque Caracristi.