Comunidades se mobilizam contra os impactos da Hidrovia Araguaia-Tocantins

Acompanhe a entrevista com o professora Dra. Carmen Adsuara da Universidade do Tocantins (UNITINS) e da vice-coordenadora do MIQCB, Maria Edinalva Ribeiro da Silva realizada por Samuel Cunha

Começa hoje, dia 30 e vai ate 31 de maio, o evento que tem por objetivo discutir os impactos do projeto da Hidrovia Araguaia-Tocantins na região conhecida como Bico do Papagaio, localizada no extremo norte do estado do Tocantins, território com características exuberantes dada a presença de rios, ilhas e praias de água doce.

O evento é resultado do trabalho realizado na disciplina de extensão da professora Dra. Carmem Adsuara com os alunos da Universidade do Tocantins (UNITINS) do campus de Araguatins com a parceria do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) e do Movimento pelos Direitos Humanos do Tocantins (MEDH-TO), comunidade de pescadores, quilombolas da Ilha de São Vicentea e povos tradicionais que habitam a região do Bico do Papagaio.

O Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) é formado com a participaçã dos estados do Tocantins, Pará, Maranhão e Piauí. A vice-coordenadora do MIQCB, Maria Edinalva Ribeiro da Silva, alerta que as sete barragens já existentes no rio Tocantins vêm causando “uma drástica redução no volume de água, afetando diretamente os modos de vida das comunidades ribeirinhas e tradicionais”.

O projeto da Hidrovia desde o início gera grande contradições. Se por uma lado há quem defenda e aponte os benefícios que o empreendimento vai promover para os estados que são confluentes àquela área, que são além do Tocantins, o Maranhão, o Piauí e o Pará, há quem se preocupe com a sobrevivência das comunidades tradicionais, que ali habitam.

Povos das etnias Karajá, Xambioá, Javaé, Xerente, Krahô, Krahô kanela, Apinajé e Avá-Canoeiro, comunidades de pescadores, quilombolas que sobrevivem, prioritariamente da pesca tradicional, apoiados pelo Movimento de Direitos Humanos do Tocantins, tem se esforçado para sensibilizar a sociedade sobre os impactos negativos que a consolidação da hidrovia que, se implantada, vai deixar nesses territórios.

Um dos maiores impactos está da destruição do pedral do Lourenço

O pedral é uma formação rochosa no fundo do rio que restringe a passagem segura de embarcações de carga. No dia 26 de maio, o IBAMA concedeu a licença de realização das obras de remoção do Pedral do Lourenço.

O derrocamento ou a remoção das rochas do leito do rio tem o intuito de adequar a largura e a profundidade para favorecer a navegação fluvial no Rio Tocantins, um investimento estimado em aproximadamente R$ 250 milhões. Atualmente o pedral reduz a capacidade navegação neste trecho rochoso por aproximadamente 40 quilômetros.

Para a efetivação da obra é necessário a remoção das rochas do pedral já que no período de seca, a navegação fica comprometida a partir do lago de Tucuruí, um trecho de 43 km de rochas que impede a navegação comercial de grande porte entre o final do reservatório da hidrelétrica e a cidade de Marabá (PA).

A hidrovia do Tocantins-Araguaia está inserida na segunda maior bacia do Brasil e é composta por 4 bacias hidrográficas: Araguaia, Marajó, Pará e Tocantins, localizadas na porção central do País entre as regiões Norte e Centro-Oeste. A área total dessas bacias é de 918.243 km², abrangendo parcialmente o território do Pará, Mato Grosso, Tocantins, Maranhão e Goiás, além de pequena porção do norte do Distrito Federal.

De acordo com o Ministério dos Portos (Mpor) com a conclusão da dragagem e derrocamento do Pedral do Lourenço, o estado do Tocantins terá condições de movimentar mais de 20 milhões de toneladas de carga por ano, o que fortalece a economia, sobretudo por meio do setor agro.

Licenciado como um projeto único e integrado, a obra vem sendo executada em partes isoladas, uma estratégia que facilita sua aprovação ao ocultar os impactos acumulados sobre todo o ecossistema fluvial.

O empreendimento está dividido em três trechos principais que envolvem dragagem e derrocagem, afetando diretamente áreas entre os municípios de Marabá, Itupiranga, Santa Terezinha do Tauiry, Ilha de Bogéa, Tucuruí e Baião.

Os impactos previstos são severos. A remoção das pedras e a alteração do leito do rio provocam destruição de habitats naturais, comprometendo a fauna e flora aquáticas. A dinâmica das águas é modificada, gerando desequilíbrios como aumento de erosão, assoreamento em alguns pontos e escassez de água em outros.

O encontro realizado no Bico do Papagaio busca fortalecer a resistência dessas comunidades e cobrar que os órgãos responsáveis reconheçam os efeitos negativos acumulados do projeto. Para os participantes, a hidrovia, da forma como vem sendo conduzida, representa mais um capítulo da longa história de exploração que privilegia o transporte de commodities em detrimento da preservação ambiental e dos direitos das populações que historicamente habitam as margens desses rios.

Para a professora Carmen Adsuara o maior problema reside “na violação de direitos dos moradores locais, porque não houve consulta prévia nem debate público nas cidades que serão impactadas com a construção da hidrovia”.

Principal via de transporte do corredor Centro-Norte brasileiro

A hidrovia do Tocantins-Araguaia é uma das principais vias de transporte do corredor Centro-Norte brasileiro. É navegável até a HN-100 Rio Amazonas, desde Barra do Garças (MT), na HN-209 Rio Araguaia, ou Peixe (TO), na HN-200 Rio Tocantins, até o porto de Vila do Conde, próximo a Belém (PA), privilegiadamente localizada em relação aos mercados da América do Norte, da Europa e do Oriente Médio.

Fonte

Justiça Federal ignora impactos sociais e ambientais na licença do trecho 2 da Hidrovia Araguaia-Tocantins

https://mab.org.br/2025/05/26/liberacao-do-derrocamento-do-pedral-uma-ameaca-ao-meio-ambiente-e-as-comunidades-do-rio-tocantins/

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Um Projeto de Pesquisa e Extensão idealizado para as atIvidades práticas de reportagem, produzido com a participação dos acadêmicos do curso de jornalismo da UFT.

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