Quebradeiras de coco, artesãs e agricultoras enfrentam as ameaças de grandes empreendimentos com criatividade, cooperação e resistência
Por Netally Vitória
Na cidade de Caseara, à margem direita do rio Araguaia um grupo de mulheres fundou a AMA (Associação das Mulheres Agroextrativista) da APA Cantão beneficiando o jatobá. Na cidade de Ponte Alta do Tocantins a Associação das Mulheres Unidas do Jalapão, usa a farinha de baru como base para a produçao de biscoitos. Entre o Cerrado e a Floresta Amazônica, na região conhecida como Bico do Papagaio as mulheres quebram o coco de babaçu e juntas fundaram o Movimento das Quebradeiras de Coco de Babaçu (MIQCB). Todos esses empreendimentos se baseiam em príncípios ecológicos, sociais, econômicos mais sustentáveis e justos.
A participação feminina tem alterado o cenário do empreendedorismo rural no Brasil e apresenta um crescimento notável na participação feminina. As mulheres do campo expandem a atuação para além das atividades tradicionais, assumindo papéis cruciais como gestoras, produtoras e administradoras em diversos setores do agronegócio.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), as mulheres rurais são responsáveis por aproximadamente 45% da produção de alimentos em países em desenvolvimento, incluindo o Brasil.
Desafios que moldam o caminho
Apesar do avanço do empreendedorismo feminino no Tocantins, diversos obstáculos ainda dificultam o êxito da produção. A falta de infraestrutura adequada, o apoio limitado de políticas públicas e a escassez de recursos financeiros são barreiras significativas, que retardam o crescimento sustentável.
Ana Lúcia Rodrigues, integrante da Associação Mulheres Agroextrativistas da APA Cantão, é um exemplo. Ela aponta os desafios, destaca as dificuldades, “os maiores problemas enfrentados hoje pelas mulheres das associações no empreendedorismo estão diretamente ligados à questão dos selos”.

“Nós, mulheres, somos as principais responsáveis pelos cuidados da casa, da família, pela própria continuidade da vida, somos nós que arcamos com a maior parte do trabalho dentro de casa”. Ana Lúcia da Associação Mulheres Agroextrativistas da APA Cantão
“Nós nunca conseguimos a certificação, porque exige muta coisa, como uma cozinha adequada, logística e equipamentos específicos”, explica. Segundo ela, Para que possam realizar as vendas de forma correta, atendendo às exigências do mercado, “essa certificação é fundamental”.
A rotina do trabalho coletivo, “também não é fácil e dificulta maiores rendimentos”, segundo a empreendedora, “é tudo muito longe, e aí a gente pára nas questões financeiras, porque a produção não consegue gerar o suficiente para comprar os equipamentos, utensílios, montar a cozinha, fazer nossas coletas, nossas rodas de conversa, nossas oficinas. São grandes desafios”, lamenta.
A jornada dupla de trabalho é outro obstáculo significativo para o desenvolvimento pleno do empreendedorismo feminino rural. A necessidade de conciliar as atividades produtivas com as inúmeras responsabilidades domésticas e familiares impõem limitações na atuação com o negócio.
“Nós, mulheres, somos as principais responsáveis pelos cuidados da casa, da família, pela própria continuidade da vida, somos nós que arcamos com a maior parte do trabalho dentro de casa”, justifica. “Só que o desejo de produzir, investir e empreender é maior que as dificuldades do dia-a-dia”.
Mulheres Unidas do Jalapão
Fundada em outubro de 2007 por agricultoras assentadas da reforma agrária, a associação surgiu como resposta à falta de infraestrutura e oportunidades em projetos de assentamento rural.

Muitas mulheres que optam por empreender no meio rural o fazem não por idealismo, mas por necessidade concreta, por ser a única opção de subsistência e sobrevivência. Foi assim que nasceu a Associação das Mulheres Unidas do Jalapão
O grupo transformou matérias-primas locais, como o capim dourado, fibras de buriti e couro vegetal, em produtos que já circulam em eventos como a Feira Nacional de Agricultura Familiar.
A produção inclui cestas, bolsas, adornos, vestuário e alimentos processados em pequena escala, como geleias e biscoitos. A iniciativa tornou-se referência ao conciliar geração de renda com práticas agroecológicas, garantindo preços estáveis mesmo em períodos de inflação.
Apesar das conquistas, Edmar Rodrigues, presidente da Associação das Mulheres Unidas, ressalta a necessidade de ampliar o alcance dos produtos: “Hoje, o que está faltando é divulgar mais nossa produção, para que ela venha a ser conhecida por mais pessoas”, comenta.
A expressiva presença de mulheres empreendedoras no meio rural configura um panorama inspirador para as novas gerações. Ao evidenciar o crescente empoderamento feminino no campo, as mulheres não apenas conquistam destaque em atividades rurais, culturais e econômicas, mas também garantem protagonismo e voz em espaços tradicionalmente dominados por homens, como é o caso das quebradeiras de coco do Bico do Papagaio.
As quebradeiras de coco e a luta contra a construção da hidrovia Araguaia-Tocantins
Enquanto as associadas de Caseara e Jalapão transformam frutos do cerrado em renda, outra frente de resistência feminina se organiza a 722 km dali pela BR 226. Trata-se de gerar emprego e renda beneficiando as palmeiras de babaçu, fruto do trabalho das Quebradeiras de coco.
O Movimento das Quebradeiras de Coco de Babaçu (MIQCB) do Bico do Papagaio é resultado da força de trabalho das mulheres dos estados do Tocantins, Maranhão, Pará e Piauí. É na confluência fronteiriça desses estados, que elas atuam, inclusive demarcando posições políticas necessárias, como na luta contra a hidrovia Araguaia-Tocantins.

É na confluência fronteiriça desses estados, que elas atuam, inclusive demarcando posições políticas necessárias, como na luta contra a hidrovia Araguaia-Tocantins.
Para as mulheres do Bico a sustentabilidade depende diretamente da preservação do meio ambiente. “As palmeiras de babaçu só produzem bem quando chove o suficiente, para garantir a colheita do coco e, com ele, a fabricação de azeite, artesanato e alimentos como bolos e biscoitos”, explica Maria Edinalva Ribeiro da Silva, vice -coordenadora do MIQCB.
“No ano que chove bem, a gente tem uma boa produção. Quando chega o verão, tem muito coco pra cair, ai as mulheres colherem e quebrarem. Mas no ano que não chove bem e também tem grandes queimadas, que nem teve ano passado no Tocantins, no Pará, no Maranhão, no Piauí, com muito fogo desgovernado, foco de fogo pra todo lado, a gente tem muita perda, porque por onde o fogo passa, acaba com tudo”, explicou Ednalva.
Há outros problemas a serem enfrentados pelo MIQCD, um deles é a recente aprovação do Projeto de Lei nº 2.159/2021, que flexibiliza o licenciamento ambiental.
Com a flexibilização do licenciamento, mais de 25,5 milhões de hectares podem ser utilizados por empreendimentos de grande porte, afetando diretamente populações que dependem do território para sobrevivência, como é o caso das mulheres quebradeiras de coco babaçu, povos indígenas, pescadores e quilombolas.
Para Ednalva, o impacto será devastador: “Isso vai afetar muito as quebradeiras, quem vive do coco, quem vive da pesca, indígenas, pescadores, quilombolas… tudo vai ser afetado por esse grande empreendimento”, adverte.
“Onde tem essas grandes obras, eles acabam matando tudo, levando tudo, é uma forma de agredir o meio ambiente. Essa nova PL vai impactar todo mundo”, lamenta.
A força feminina no campo em números
Segundo o último Censo Agropecuário, de 2017, as mulheres já respondem por 19% dos estabelecimentos rurais dirigidos no país (1,76 milhão), com presença marcante em atividades de agricultura familiar e extrativismo – como comprovam as 6,14 milhões de mulheres trabalhadoras no campo.
No Tocantins, iniciativas como as associações de Caseara, do Jalapão e do Bico do Papagaio, ilustram esse movimento, mas também revelam fissuras. Enquanto produzem 45% dos alimentos no estado (segundo a FAO), menos de 5% têm acesso às linhas de crédito rural.
Os números evidenciam a necessidade de políticas públicas voltadas para incentivar o protagonismo feminino no agroextrativismo, também revela que o empreendedorismo rural feminino não é apenas uma alternativa de sobrevivência, mas também uma poderosa estratégia de desenvolvimento sustentável, de preservação cultural e de transformação social.
De toda maneira, faça chuva ou faça sol, enfrentando as burocracias, dificuldades de investimentos, as queimadas e a especulação territorial, as mulheres rurais do Tocantins escrevem uma lição: no cerrado, empreender é verbo coletivo e exige resistência.
O empreendedorismo impulsiona a transformação da matéria prima em produtos com alto valor comercial:
Quer saber mais? Acompanha o vídeo Catrapovos

Revisão: Prof. Maria de Fátima de Albuquerque Caracristi







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