Por Renato Martins

Quando falamos de heróis, que figura vem imediatamente na sua cabeça? Superman? Homem de Ferro? Hércules? Nelson Mandela? Talvez, Ayrton Senna? Todos aqui citados são lembrados como aqueles que lutaram por seu país, seu povo ou seu mundo, que salvaram a tudo e a todos.

Em 2018, 7 das 10 maiores bilheterias do cinema mundial pertenceram a filmes de herói. Do infantil Os Incríveis 2 até o violento Deadpool 2. Em primeiro lugar, absoluto, tendo arrecadado US$ 2,047 bilhões de dólares, está Vingadores: Guerra Infinita, o longa que reuniu todos os maiores sucessos da Marvel Studios em quase três horas de aventuras e bravuras uniformizadas.

Dos 10 filmes mais buscados no Google pelo mundo em 2018, 5 são de heróis. No ano passado, estreou o primeiro herói brasileiro nos cinemas, O Doutrinador, que aborda a saga de um vigilante que resolveu se vingar das autoridades políticas de sua cidade após a morte da filha. Aqui se introduz o segundo segmento que mais tem criado figuras heroicas, a política.

Nos últimos anos, a ideia de um salvador tem se proliferado no debate nacional eleitoreiro. O primeiro a ser lembrado é o ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, relator do julgamento do Mensalão (2012-2013), que colocou gigantes da política na cadeia.

A fama de durão somada às prisões decretadas rendeu ao magistrado a alcunha de “Batman brasileiro”. Sendo reconhecido como o grande algoz da corrupção da época. Em 2018, durante a campanha eleitoral, ele quase concorreu e tinha até 10% de intenções de votos, apesar de ter se filiado a um partido de pouca expressão, o PSB.

Legenda: (meme de internet/Foto original: José Cruz / Agência Brasil)

Mas, naquele ano, o vencedor do desafio heroico acabou sendo o capitão da reserva do exército e deputado federal, Jair Bolsonaro (PSL). Outro homem de imagem viril e sempre apontado como aquele “que livraria o país do comunismo”. Sim, Jair era e ainda é o Messias“que veio para nos salvar do PT”.

Legenda: (Montagem: Bolsonaro com uniforme do Capitão América com as cores do Brasil/ Foto: Internet)

Eleito, já este ano, em seus primeiros seis meses de governo, não se vê nada além de incompetência e estupidez. Além de incontáveis escândalos criminosos envolvendo sua família e sua equipe ministerial. O herói provou-se um vilão de segunda linha, inexpressivo e aliado de corruptos e milicianos.

Falando na equipe de Bolsonaro, não existe figura mais controversa do que a do Superministro da Justiça, Sérgio Moro. Dito como herói nacional, “guerreiro do povo brasileiro”. “Aquele que prendeu os maiores ladrões da história do país”, entre eles, o ex-presidente Lula. O encarceramento do petista é a maior realização de Moro e o site The Intercept Brasil revelou que o juiz participou ativamente das estratégias da acusação, ferindo a isonomia do processo e escancarando a face de imparcialidade do Juiz e Executor de Curitiba.

Legenda: (Foto de manifestação em defesa da Lava Jato / Foto: Estadão)

No Tocantins, ainda em 2018, outro ex-juiz tentou crescer sob a bandeira da luta contra a corrupção, Marlon Reis (REDE), o idealizador da lei da Ficha Limpa, passou a campanha inteira falando de como era uma “terceira via” entre a esquerda e a direita, assumindo-se como “o novo na política”.

Legenda: (Marlon Reis em campanha para Governador do Tocantins/ Foto: Marco Aurélio Jacob/RAKA-GZT)

Bastou o fim das eleições para se conhecer o verdadeiro Marlon, que deu calote em praticamente todos os profissionais que se dedicaram a realizar sua assessoria. Além disso, o TRE rejeitou as contas de sua campanha, apontando irregularidades na declaração de seus gastos.

Por que o brasileiro acredita que precisa de heróis? Para responder, há teorias. Uma cultura escravocrata como a nossa herdou, entre tantos aspectos racistas, a ideia de que se há algo a ser feito, outra pessoa virá e a fará.

Religiosamente falando, o Brasil é o país com o maior número de católicos fora do Vaticano e galga para se tornar a nação com a maior quantidade de convertidos ao protestantismo, ambas denominações cristãs, historicamente crentes da figura de um salvador divino.

Historicamente, “nascemos” a partir da descoberta de Pedro Álvares Cabral e nos tornamos livres pelo brado de Dom Pedro I. A república, por sua vez, surgiu do movimento liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca.

O descobridor chegou por engano, a independência resultou numa grande dívida e o presidencialismo veio de um golpe. Os heróis brasileiros surgem a todo momento e carregam em si a esperança de um povo que não aprendeu a se emancipar. São homens que se inspiraram no clamor popular, muitas vezes cego.

Heróis altruístas e totalmente bons não existem. Na política, menos ainda. Há de se duvidar de toda figura que aceite a alcunha e a transforme em marca de sua existência. Não precisamos de salvadores, precisamos nos salvar. No final, todo herói é só mais um de nós, mas com bem menos escrúpulos.

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Um Projeto de Pesquisa e Extensão idealizado para as atIvidades práticas de reportagem, produzido com a participação dos acadêmicos do curso de jornalismo da UFT.

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